Coordenadoria de Educação Religiosa

Educação e Liberdade do Indivíduo

 

     

“Aprendi o que quiseram que eu aprendesse, disse o que queriam que eu dissesse, assumi os compromissos que quiseram e fui ordenado padre”. [1]

 

  Esta foi a fala de um vigário, personagem de Rousseau em “Emílio ou Da Educação”, referindo-se a sua infância e juventude. O vigário admite em seu discurso que foi passivo diante da vida, procurando sempre atender as expectativas de seus pais, professores e líderes. Foi passivo também diante do conhecimento que recebia, pois  ”tendo nascido numa Igreja que tudo decide, que não permite dúvida” [2] foi-lhe negada a liberdade de expressar suas questões.  

Para o menino que se tornou vigário, ser objeto (passivo) e não sujeito (ativo) de sua história era “natural”, uma verdade inquestionável, uma realidade imutável. Em sua época a religião era um forte instrumento de pressão social. A Igreja Católica determinava a forma de ver e pensar o mundo. Não permitia dúvidas, mas elas borbulhavam  no coração do vigário. De dúvida em dúvida, ele descontruía e construía novos conhecimentos. Usando as palavras do vigário, Rousseau diz  “se o homem é ativo e livre, ele age por si mesmo. “ [3]  

Como batistas e educadores devemos estar atentos para desenvolver uma relação de respeito ao outro, em especial ao aluno. Esta relação não deve ser vertical, onde o professor, ao deter o saber, mantém uma relação de poder, determinando o que o aluno deve ser, pensar e agir. Isto seria “coisificar” o aluno. Esta postura contraria os Princípios Batistas, quando o documento afirma que “o indivíduo nunca deve ser usado como um meio, nunca deve ser manobrado, nem tratado como mera estatística. Este ideal exige, antes, que seja dada primordial consideração ao indivíduo, na sua liberdade moral, nas suas necessidades urgentes e no seu valor perante Cristo.” [4]    

Ao contrário de moldar o aluno, de fazer com que ele obedeça acriticamente às normas da família, igreja e sociedade, devemos construir uma relação horizontal, em busca de diálogo, abrindo espaço para dúvidas e debates. Ajudar o aluno a fazer suas escolhas, a tomar as suas decisões de forma consciente, até alcançar autonomia. Como diz uma música popular: “a lição sabemos de cor , só nos resta aprender.” Nas relações sociais, “aprendemos a lição” quando praticamos as leis que julgamos que devem ser respeitadas atendendo a nossa consciência moral num processo de autonomia e não mais seguimos a lei que outros determinaram para nós (heteronomia).  

A educação em si, deve ser  um instrumento para que os alunos desenvolvam a sua percepção de mundo de forma crítica. Em alguns momentos será necessário  transmitir o saber, dar acesso a informações. Em outros momentos os alunos podem ser incentivados a buscar os “porquês”, a solucionar problemas trazidos do cotidiano. É importante criar oportunidades para que os alunos falem das situações vividas durante a semana  de forma a  provocar a discussão sobre o tema.

   

Todo educador deveria ver o filme “O Show de Truman”. É a estória de um menino que foi criado numa pequena cidade numa ilha. Toda a sua vida foi rotineira e “normal”, até que chegando a idade adulta começou a desconfiar de sua própria visão de realidade. Estranhou o que era antes “natural” em seu cotidiano e descobriu então que a cidade não passava de um grande cenário, e que toda a sua vida era um programa de televisão assistido por milhares de pessoas.

  Parece-me que a igreja pretende  ser uma fortaleza protegendo a criança de conhecimentos ou contradições que possam  derrubar a  visão de mundo construída. Porém cedo ou tarde, o adolescente ou jovem  será  confrontado com outros conhecimentos e verdades, quer seja na escola, universidade, na comunidade, na mídia. Verá, assim como Trumam ao sair do cenário, que a realidade é múltipla, complexa, e por isto mesmo passível de ser compreendida de diferentes maneiras.  

Igreja local  não é uma ilha. Vivemos numa sociedade em que influenciamos e somos influenciados. A tensão é constante, mas os princípios cristãos e éticos existem para serem vividos na relação entre os homens, na sociedade. As respostas aos conflitos éticos se darão a partir do debate, pois não existem respostas prontas para os desafios éticos  como: clonagem, aborto, divórcio, racismo, intolerância religiosa, etc.  O nosso compromisso é compartilhar com as crianças de nossas igrejas a nossa visão de realidade a partir dos ensinamentos bíblicos, construindo um alicerce para que ela possa se situar no mundo e dialogar com visões divergentes.      

Olga Maria R. Nogueira Sant’Anna

Coordenadora de Educação Religiosa

Convenção Batista Fluminense

 

                       


[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da educação. São Paulo: Martins Fontes, 1995, pg.356.

 

[2] Ibidem, pg.358.

[3] Ibdem, pg. 378.

[4] Impacto: Realidade Batista. Rio de Janeiro: Convenção Batista Fluminense, pg.17