Coordenadoria de Educação Religiosa

A Cachoeira e o Povo

 

     

Alexandre Castro*

   

            Aquela cachoeira era lindíssima. Do alto da montanha todos podiam contemplá-la em seu fulgor. Pássaros cantando, a brisa soprando, olhos fitos na água que cai. Tudo contribuía para a construção de um cenário inesquecível. O leve ruído das águas nas rochas soava como um sussurrar que transparecia serenidade e paz.

 

            Os mais antigos contavam histórias incríveis de um grupo que, se aventurando na mata, teve a coragem de olhar a cachoeira de perto. Por isso, o respingar da água fria e os arco-íris multi-coloridos habitavam na imaginação dos mais jovens: “como deve ter sido lindo!”

 

            A cachoeira era o orgulho dos moradores da região e, como não poderia deixar de ser, sua fama foi se espalhando mais e mais. A princípio, os que vinham conhecê-la eram apenas algumas pessoas das cidades vizinhas, mas, depois, para surpresa geral, o fluxo de turistas foi aumentando em proporções inimagináveis.

 

            Com o passar do tempo, os líderes da comunidade tomaram uma decisão. Era necessário oferecer maiores informações aos visitantes. Não era justo que uma cachoeira tão bonita fosse apresentada sem maiores considerações. A idéia que predominava era que cada visitante receberia uma série de instruções para que pudesse avaliar bem a importância daquela maravilha.

 

            Os primeiros instrutores foram pessoas do próprio povo que, ao apontar a cachoeira, falavam de suas experiências, de seus sonhos e de seus anseios. Os visitantes até que gostavam das explicações, mas os líderes da comunidade acharam que isso era pouco. Tornava-se necessário um empreendimento mais abrangente.

 

            Os instrutores se submetiam a muitos cursos. Afinal, não era qualquer um que tinha condições de explanar acerca de tão bela cachoeira. Os visitantes passaram a receber informações muito profundas antes de verem o que começou a ser chamada de: “A extraordinária manifestação do esplendor da natureza”.

 

            O decorrer dos anos possibilitou a realização de vários estudos. Muita literatura foi produzida em função das novas descobertas. Por causa desse desenvolvimento, as visitas à cachoeira passaram a começar de manhã bem cedo quando todos se dirigiam a um amplo salão onde tinham que ler várias revistas que mostravam aspectos dos mais variados sobre a queda-d’água. A origem do rio, as condições climáticas, a força da gravidade, a densidade da água, tudo devia ser minuciosamente estudado. Os visitantes, após estarem inteiramente esclarecidos, podiam, no final da noite, dar uma breve olhadinha na cachoeira tão admirada e estudada.

 

            O objetivo final havia sido alcançado. Todos podiam Ter cesso às informações científicas mais significativas, mas, ao contrário do que apontavam todas as previsões, o fluxo de turistas parou de crescer. Aliás, decaiu bastante. Ninguém entendia bem a razão por que isso estava acontecendo. Aos visitantes era dada a oportunidade de verem gravuras, desenhos e até fotos sobre a cachoeira. Os estudos se tornaram profundos e complexos, mas nada adiantava. A verdade é que a cachoeira já não mais suscitava tanto interesse e os líderes da comunidade, angustiados e perplexos, se perguntavam: “Onde será que erramos?”

 

            ONDE ESTÁ O ERRO?

 

            Os líderes eram bem intencionados, não há dúvida. A boa intenção, no entanto, não faz milagres. Eles careciam de uma visão mais crítica da realidade para que pudessem agir com eficácia.

 

            O objetivo inicial – destacar ainda mais a beleza da cachoeira – não foi atingido porque usaram métodos muito impróprios. As explicações acerca da cachoeira receberam tanta ênfase que os visitantes mal tinham tempo de admirá-la por si mesmos. Assim como no caso de um fotógrafo distraído, o foco não foi bem ajustado e a cachoeira, que deveria ter ficado em primeiro plano, acabou sendo negligenciada.

 

            CONCLUSÃO:

 

            De tanto ouvir explicações secundárias, os turistas ficavam desmotivados. E o mato cresceu no caminho que levava à cachoeira...

 

            Melhor teria sido se os líderes da comunidade tivessem criado novos atalhos que conduzissem a bem perto da queda-d’água . O que os visitantes precisavam era de uma maior aproximação do alvo de seu interesse. Dessa forma, o povo chegaria, com um mínimo de informações, às suas próprias conclusões. Eles aprenderiam, quase que sozinhos, como observá-la.

 

            E, próximos  a ela, quem sabe, descobririam coisas que nem os líderes imaginaram. Poderiam encontrar água que satisfaz o sedento. Obteriam nela o alívio refrescante que ameniza todo o calor. Descobririam, enfim, que mais do que uma beleza natural, a cachoeira se constitui em uma rica fonte de vida.

           

            FALANDO DE ESTUDO BÍBLICO

           

A história do povo da cachoeira nos adverte que o mesmo pode ocorrer em relação ao estudo bíblico na igreja. A Bíblia corre o risco de ficar muito distante. Você não conhece situações em que os crentes estudam revistas bíblicas nas reuniões e, somente no final, dão uma olhadinha na Bíblia? Isso não tá certo. É preciso manter a Bíblia no lugar onde ela nunca deveria ter saído, ou seja, no local de destaque e referencial para nossas vidas.

 

Os comentários bíblicos de livros e revistas são importantes, não há dúvida. Eles nos auxiliam a entender certos textos difíceis, mostram diferentes possibilidades de interpretação, apresentam informações históricas e orientam quanto a necessidade da aplicação da Bíblia à vida atual. Não podemos, entretanto, colocá-los acima da própria Bíblia. Ler a literatura de estudo bíblico não equivale a estudar a Palavra de Deus. É como ouvir falar da cachoeira sem poder contemplá-la com os próprios olhos.

 

 

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* Professor do Seminário Teológico do Sul do Brasil,

Mestre em Psicologia pela UERJ,

Autor do livro “Em Busca do Fio da Meada:

 facilitando a interpretação da Bíblia”.